Blockchain na indústria da moda

Instituto C&A em 14 de novembro de 2017

A inovadora e premiada venezuelana Neliana Fuenmayor adotou Londres como o seu lugar no mundo logo após se formar em Design e Empreendedorismo na Moda no London College of Fashion. Ela é diretora-fundadora de A Transparent Company, consultoria que oferece soluções para empresas que desejam resolver os problemas de sustentabilidade e inovação mais urgentes da indústria da moda, com o uso da tecnologia blockchain (Confira outra entrevista sobre o tema).

Neliana desenvolveu o primeiro piloto de transparência da cadeia de suprimentos da moda no mundo, em parceria com a Provenance (empresa de desenvolvimento de software) e com a estilista Martine Jarlgaard. Essa iniciativa foi apoiada pelo Instituto C&A globalmente por meio do programa “Fashion for Good-Plug and Play Accelerator”. A empreendedora participou de um dos painéis promovidos pelo Instituto C&A no Sustainable Brands, que aconteceu em São Paulo, em setembro. Na ocasião, ela conversou conosco sobre a sua experiencia.

Insituto C&A: Por que você escolheu especializar-se em blockchain?

Valorizo muito minha formação e meu interesse por moda e sustentabilidade. Dois eventos marcaram a minha trajetória: o desabamento de Rana Plaza, em Bangladesh, que matou mais de 1000 pessoas em 2013, e quando a tecnologia blockchain se tornou conhecida, em 2015. Após esses episódios, percebi que o caminho que eu queria seguir era o de levar a sustentabilidade na moda para um outro patamar.


“O blockchain conecta e disponibiliza todas as informações de cada fornecedor que faz parte dessa cadeia. Isso faz com que toda a indústria seja mais transparente. ”

Neliana Fuenmayor, da Transparent Company

Insituto C&A: Como o blockchain pode revolucionar a indústria da moda?

O blockchain conecta e disponibiliza todas as informações de cada fornecedor que faz parte dessa cadeia. Isso faz com que toda a indústria seja mais transparente e, consequentemente, as grandes marcas se tornem responsáveis pelas empresas e pessoas que contratam e subcontratam, pelos danos ambientais e pela violação de direitos humanos que eventualmente estejam causando.

Nosso projeto rastreou e acompanhou a jornada de uma matéria-prima específica, a lã de alpaca. Acompanhamos toda a sua cadeia de produção, desde a criação dos animais nas fazendas, a tosquia da lã [ato de cortar a lã bem rente ao corpo do animal], o transporte, o manuseio e a fiação até chegar à loja de moda de luxo da estilista Martine Jarlgaard. São as primeiras peças de roupa do mundo rastreadas com a tecnologia blockchain e com todas as informações disponíveis no QR code em suas etiquetas.

Insituto C&A: Quais são as vantagens da sua iniciativa para as grandes marcas e para os consumidores?

Na verdade, é tudo ainda muito novo, mas é relativamente simples de entender: a tecnologia inovadora do blockchain permite que as informações da cadeia de fornecedores e de suprimentos sejam armazenadas em dados descentralizados, que não podem ser alterados ou editados, o que faz com que todos sejam responsabilizados pelo conteúdo fornecido.

Então, o que fazemos é tornar o caminho mais fácil para que informações confiáveis de todas as cadeias de fornecedores sejam acessadas pelas indústrias e pelas grandes marcas. Elas, por sua vez, adquirem ferramentas mais sólidas para construir relações de confiança com seus atuais e futuros consumidores. O mundo hoje está em constante mudança, e é vital para as empresas estarem abertas a novas estratégias e tecnologias. Quando uma companhia se torna mais transparente e adota uma abordagem alternativa e inovadora para a cadeia de suprimentos de seu produto, ela ajuda seus negócios a prosperarem a longo prazo, mudando sua mentalidade de sustentabilidade e de boas práticas.

Insituto C&A: Qual é o papel da tecnologia, das mídias sociais e dos millennials nesse panorama?

Tudo isso é possível graças à democratização e ao acesso à tecnologia, juntamente com a mudança de comportamento da geração millenials  (como são conhecidos os que nasceram a partir da década de 1980). Eles se importam com a procedência e com a responsabilidade dos produtos que consomem e querem viver em um mundo mais justo e inclusivo, usando o poder das redes sociais para denunciar e criar fóruns de discussões. A tecnologia facilita essas interações e contribui para a disponibilidade das informações.


Insituto C&A: Como tem sido para você ser apoiada pelo projeto Fashion for Good-Plug and Play Accelerator*?

Ter sido selecionada para fazer parte desse programa já é um incentivo e tanto. Essa iniciativa nos apoia para desenvolver soluções cada vez mais inovadoras e me conecta com pessoas em diferentes lugares do mundo, que pensam igual e querem compartilhar seu conhecimento e trocar informações. Estou muito confiante, porque esse tipo de apoio reforça minha crença e meus esforços para transformar a indústria da moda e torná-la mais transparente, justa e sustentável.

* Acesse o site Fashion for Good para conhecer mais sobre essa e outras iniciativas que estão transformando a moda em uma força para o bem. 

Fotos: Diego Garcia / Instituto C&A