Blockchain, uma tecnologia tão revolucionária quanto a Internet?

Instituto C&A em 14 de novembro de 2017

Para alguns especialistas a tecnologia blockchain é tão revolucionária quanto a própria internet. Assim como movimentar informações livremente pela web transformou as comunicações e a mídia, movimentar valores por meio do blockchain tem um potencial gigantesco a ser explorado. Nesta entrevista, Oswaldo Oliveira, criador da Organização Próspera e de um modelo organizacional que trabalha com o paradigma da abundância, fala sobre sua experiência de trabalho em rede e a utilização do blockchain nesse processo.

O uso dessa tecnologia na cadeia da moda foi tema de um dos painéis do Sustainable Brands, promovido pelo Instituto C&A, em São Paulo, no mês de setembro. Clicando aqui, você confere a entrevista com Neliana Fuenmayor, que desenvolveu o primeiro piloto de transparência da cadeia de suprimentos da moda no mundo.

 Instituto C&A: O que é blockchain? Por que essa tecnologia é considerada tão revolucionária?

 Blockchain é uma espécie de Livro Razão da contabilidade [obrigatório pela legislação comercial, cuja finalidade é demonstrar a movimentação analítica das contas que aparecem no balanço das empresas]. Podemos afirmar também que o blockchain é uma maneira de esclarecer e validar um registro, ou ainda, um sistema de registros que garante a segurança das operações realizadas por criptomoedas (ou moedas digitais). O blockchain é uma tecnologia que busca a descentralização como medida de segurança, pois suas bases de registros e dados são distribuídas e compartilhadas com o objetivo de criar um índice global para todas as transações que ocorrem em um determinado mercado. Assim, ao contrário de outros sistemas, o registro gerado pelo blockchain é distribuído e está presente em todos os computadores onde o software é rodado. Por exemplo: a transferência dos saldos em bitcoins (a moeda digital mais conhecida) é armazenada em milhões de computadores que guardam a mesma informação, tornando-se impossível a uma pessoa, ou a um grupo de pessoas, editar, burlar, fraudar ou mudar esses dados.

 Além disso, o sistema é extremamente seguro (tudo é criptografado), rastreável, transparente, público e toda transação é encadeada na transação anterior, mantendo-se a confiabilidade, a inviolabilidade e a integridade. É uma tecnologia altamente revolucionária porque não depende de cartórios, bancos, auditorias, bolsas, estruturas de liquidação ou órgãos governamentais. O blockchain não é um site, não é um aplicativo, não é uma solução que tem um dono, é uma nova camada da internet. É uma tecnologia extremamente disruptiva. Por tudo isso, o blockchain já é conhecido como “o protocolo da confiança”.

“o que temos agora é uma infraestrutura que possibilita a auto-organização das pessoas. Essa nova abordagem permite que a produção e o comércio local se organizem de outra forma e que haja a interdependência de uma cadeia distribuída, não centralizada. Isso é uma boa notícia para a indústria da moda, desde que ela se ressignifique, reduzindo custos e aumentando a possibilidade de atuação a partir da interdependência em rede.”

Oswaldo Oliveira, da Prospera

Instituto C&A: Então as estruturas financeiras atuais serão as mais prejudicadas com o blockchain?

Poderão ser as mais prejudicadas, mas também poderão ser as mais beneficiadas, uma vez que inovação é uma questão de adaptação. As instituições financeiras que se adaptarem a essa nova realidade vão reduzir exponencialmente os custos de processamento das transações e aumentar muito a segurança contra fraudes. Atualmente, por meio do blockchain já são transacionadas mais de mil moedas globalmente.

Instituto C&A: Quais possibilidades de aplicação você enxerga na indústria da moda?

É preciso entender que os processos lineares da cadeia de produção estão sendo revistos pela sociedade, e o que temos agora é uma infraestrutura que possibilita a auto-organização das pessoas. Essa nova abordagem permite que a produção e o comércio local se organizem de outra forma (sem depender de um grande ator) e que haja a interdependência de uma cadeia distribuída, não centralizada. Isso é uma boa notícia para a indústria da moda, desde que ela se ressignifique, reduzindo custos e aumentando a possibilidade de atuação a partir da interdependência em rede.


Instituto C&A: Poderia nos dar um exemplo prático?

Vamos supor que haja uma comunidade de produtores de lã, cuja capacidade de investimento é limitada. Hoje esses produtores vendem a lã para um intermediário, que vende para uma processadora de lã, que vende para uma fábrica de roupas, que coloca essas roupas nas lojas. Em tese, esses produtores de lã podem – por meio do blockchain – criar um token digital e comercializá-lo em todo o mundo para obter recursos para investirem na implantação de uma unidade de processamento de lã em sua comunidade. A partir daí podem se conectar em crowdsourcing de criação de moda, que vão criar os modelos de roupas, que poderão ser fabricados localmente e colocados à venda na internet. Os recursos da venda final vão remunerar a cadeia (os possuidores do token), uma vez que estarão trabalhando a criação e a produção comunitariamente. Dessa maneira, toda a cadeia fica desobstruída e conectada pelo próprio fluxo financeiro, sem passar por intermediários, com segurança, rastreabilidade e transparência. Esse é um exemplo simplificado do que pode acontecer com esse tipo de tecnologia.

Instituto C&A: Quais são os desafios, uma vez que ainda trabalhamos com um sistema tradicional?

Depende para qual ponto do sistema você está olhando. Do ponto que eu olho, o sistema já não é mais como era. Muitas empresas e organizações não fazem conta dos seus resultados levando em consideração o efeito rede, porque não estão olhando para isso. Um exemplo é a indústria automobilística: não é que esteja vendendo menos por conta da recessão, mas porque está havendo uma mudança em relação ao consumo de veículos, com mais possibilidades de compartilhamento, com preocupação com o meio ambiente. É preciso olhar para essa nova realidade e se adaptar.

Instituto C&A: Como você começou essa história?

Sou economista por formação, trabalhei muito tempo no mercado financeiro, mas fui quebrando esse padrão à medida em que aprendia a viver em rede. Tenho mais de 20 anos de vida em rede, sendo que rede para mim não é só uma questão profissional, também é um processo de vida e uma busca pessoal. Sou convidado para eventos porque venho aprendendo a viver em rede há muito tempo. A vida só existe porque é uma rede distribuída.


Instituto C&A: E o seu trabalho, como funciona?

Meu trabalho tem a ver com organizações em rede e com o paradigma da abundância, que parte da ideia de que tem para todo mundo. A sociedade industrial foi construída com a ideia de que não tem para todo mundo. Essa visão tornou-se um paradigma, um padrão: não tem dinheiro para todo mundo, não tem espaço para todo mundo, não tem isso ou aquilo para todo mundo. Esse é o paradigma da escassez, que tira coisas de circulação, aumenta o custo de transação, gera exclusão, autorrealizando a profecia de que não tem para todo mundo. Nós fomos criados para ter essa visão. Mas será que tem de ser assim?

Eu desenvolvi um modelo organizacional que trabalha com o paradigma da abundância, onde não há processo seletivo, nem CNPJ, nem orçamento, nem planejamento, nem meta, nem cargo padrão. Na Organização Próspera nós criamos um outro ambiente, onde as pessoas se conectam e começam a interagir e colaborar em rede para criar múltiplas coisas: um software, uma cerveja, um curso, um livro, um filme, qualquer coisa. Assim, ao colocarmos o poder cocriativo no sistema, em vez de fazer estoque, aumentamos a velocidade da transformação. Quando isso acontece o custo de transação cai, inclui, e aí a profecia também se autorrealiza: tem para todo mundo.

Quando há necessidade de captar recursos para investir em determinada ideia, o blockchain entra em cena. Eu, por exemplo, utilizo o blockchain para uma figura chamada Poupança Coletiva Distribuída, que permite que as pessoas criem recursos para investimento de forma distribuída, gerando um estoque de fundos para investir em determinada iniciativa. É uma dinâmica completamente diferente e que liberta o sistema.

Fotos: Diego Garcia / Instituto C&A