Economia circular e a cadeia da moda – entrevista com Luísa Santiago

by Instituto C&A on Maio 10, 2017

Amanhã (11/5) acontece o Copenhagen Fashion Summit, maior evento de moda sustentável do mundo, uma plataforma de encontro de lideranças da indústria da moda, ONGs, pesquisadores e estudantes. A C&A Foundation, organização da qual o Instituto C&A faz parte, participa e apoia o evento, que tem como um dos temas chave a economia circular. Para compreender melhor o conceito, conversamos com Luísa Santiago, representante da Fundação Ellen MacArthur no Brasil, também participante do Copenhagen Fashion Summit.

Criada em 2010, a Fundação Ellen MacArthur reúne empresas ao redor do mundo dispostas a mudar seus modelos de negócio utilizando a economia circular.

A entrevista com a Luisa foi feita após o Diálogos Transformadores, evento promovido pela Folha de São Paulo e Ashoka, com o apoio do Instituto C&A.

Instituto C&A: O que é economia circular?

Luísa Santiago: É uma economia regenerativa e restaurativa por princípio, ou seja, que exclui o resíduo e a externalidade negativa desde o início e que está estruturada em três princípios básicos:

Primeiro: Regenerar e aprimorar o capital natural [matéria-prima] e não degenerar, como fazemos em uma economia linear;

Segundo: Otimizar o rendimento dos materiais – no nosso modelo atual, de extração, transformação e descarte, há muitas perdas, tanto em resíduos como em oportunidades.

Terceiro: Por último, ter um sistema efetivo. Uma economia circular não se trata de ter um produto mais verde, uma empresa mais sustentável ou uma prática melhor, muito menos de ser mais sustentável do que era. Significa fazer parte de um sistema que funciona melhor e que, ao longo prazo, revela e exclui os fatores negativos desde o princípio da cadeia de valor. Na vida e no planeta, as coisas se regeneram e se restauram o tempo todo. A ideia é incluir esse princípio na economia.

Instituto C&A: Como ela pode ser aplicada à cadeia da moda?

Luísa Santiago: A cadeia da moda, como todo nosso sistema de produção e consumo, foi pensada muito linearmente e foi criada com base em grandes perdas – é o segundo setor que mais gera resíduo no mundo. Só aí, começamos a entender que existem muitas oportunidades, considerando a ideia de que é possível transformar as perdas em grandes oportunidades. Ainda não temos todas as respostas, mas estamos começando a entender como a moda pode, de fato, operar de acordo com os princípios da economia circular. Não vamos ter uma solução única, mas construiremos os caminhos juntamente com as principais organizações do setor.


“A cadeia da moda, como todo nosso sistema de produção e consumo, foi pensada muito linearmente e foi criada com base em grandes perdas – é o segundo setor que mais gera resíduo no mundo. Só aí, começamos a entender que existem muitas oportunidades, considerando a ideia de que é possível transformar as perdas em grandes oportunidades. ”

representante da Fundação Ellen MacArthur no Brasil Luísa Santiago

Instituto C&A: E como está sendo esse trabalho?

Luísa Santiago: A Fundação Ellen MacArthur trabalha com uma rede de organizações, a CE100, e temos um braço brasileiro nessa rede. É um programa global que inclui organizações como a C&A, a Renner e outras menores que já estão pensando em algumas soluções. Um dos desafios a ser resolvido é como transformar resíduos têxteis em outros produtos dentro de um sistema que funcione a longo prazo, de forma que esses novos produtos também não virem resíduos depois. Há também grandes oportunidades que começam desde a produção de matérias-primas regenerativas, passando pelo design de produtos e a definição de modelos de negócio que priorizem a satisfação de necessidades, ao invés do consumo exagerado.

Nós trabalhamos individualmente com cada uma dessas empresas, mas também atuamos de forma colaborativa para que elas possam gerar modelos que funcionem melhor. Hoje, estamos desenvolvendo um trabalho global que está sendo iniciado com pesquisa que olhará para a indústria da moda como um todo. Digo que estamos começando admitindo que sabemos muito pouco, mas que também já existe muita inteligência sendo gerada, no Brasil principalmente. Depois que essa pesquisa for finalizada, ainda neste ano, vamos conversar com as organizações envolvidas para redesenhar o sistema da moda, não apenas com uma marca ou uma indústria, mas sim com uma visão sistêmica e global.

Instituto C&A: Quais seriam os benefícios de ter uma economia circular na moda?

Luísa Santiago: São vários. O primeiro deles vale para qualquer tipo de material e setor: é mostrar que a geração de valor econômico não está associada à extração e ao limite de recursos finitos do planeta. Outro aspecto interessante é que a moda influencia e inspira, pode ser até um canal para mudanças muito maiores. A moda tem a capacidade de reinventar conceitos que podem extrapolar o simples uso de uma peça de roupa.

Nós estamos falando de um redesenho de todo o sistema, e não apenas do fabricante da fibra de algodão, da confecção, da costureira, do varejo ou do consumidor. Não são esses seres isolados que vão redesenhar uma cadeia, mas são todos eles redefinindo a noção do que é sucesso, de como se gera valor e para que serve aquilo que é feito hoje na moda. Vem muita inovação por aí para influenciar esse redesenho da moda em uma economia circular.

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Foto: Acervo Instituto C&A