Gênero em pauta para transformar a indústria da moda

Manoela Vianna em 28 de março de 2018






No mês do Dia Internacional das Mulheres, o Instituto C&A reafirma que para fazer da moda uma força para o bem precisamos enfrentar as desigualdades de gênero e as violações de direitos. Entenda por que as questões de gênero são importantes e como nós e os nossos parceiros trabalhamos na entrevista a seguir com Ana Carolina Querino (ONU Mulheres) e no vídeo com o bate papo que reuniu Ana Carolina Querino, Soledad Requena (Cami) e Raquel Schettino (Rede Asta), mediado pela jornalista de moda Lilian Pacce.

Instituto C&A: Como você resumiria o contexto atual de desigualdade de gênero no Brasil?

Ana Carolina: A experiência da ONU mostra que, em um momento de adversidade e de crise econômica, quem sofre os primeiros impactos são aquelas pessoas que saíram de condições de pobreza recentemente, que são historicamente mais vulneráveis e que têm seus direitos mais ameaçados. Essas pessoas são as mulheres, os negros e os indígenas. É nesse contexto de crise que a adoção de políticas pró-equidade se faz mais necessária.

É mais favorável adotar políticas de gênero quando estamos em um ambiente econômico positivo, com recursos para financiar essas políticas. Quando há esse ambiente mais favorável, o mercado também fica mais organizado, há também mais empregos, mais possibilidades. Então não se trata apenas de vontade política. Você começa com a vontade política, mas precisa das condições favoráveis.

Instituto C&A: Como podemos reagir a isso?

Ana Carolina: Acho que a fala do diretor da Ford do Brasil Atila Roque, dita durante uma entrevista, é um bom caminho. Ele disse que as pessoas no Brasil se acostumaram a ter direitos e elas não vão aceitar não ter mais esses direitos. Essa é a principal força que temos.  

Instituto C&A: Você poderia comentar a iniciativa da ONU Mulheres “Por um planeta 50-50”?

Ana Carolina: Essa iniciativa começou quando foi iniciada a agenda 2030 [Agenda 2030 de Desenvolvimento Sustentável], que foi reconhecida por muitas pessoas como algo importante. A partir da revisão dos avanços em relação à implementação da Plataforma de Ação de Pequim e da constatação que nenhum país no mundo alcançou a igualdade de gênero - e que estamos muito longe disso -, veio a provocação de fazermos um chamado para termos um planeta 50-50 até 2030. Este chamado é parte da concretização do princípio de não deixar ninguém para trás e incluir todos na Agenda de Desenvolvimento Sustentável. Nossa diretora executiva [Phumzile Mlambo-Ngcuka] é uma sul africana que foi vice-presidente da África do Sul e teve um papel importante no Apartheid. Ela tem muito claro que é possível adotar ações que promovam rupturas profundas. Então, no momento em que foi adotada a Agenda 2030, é lançado este desafio que é o de termos 15 anos para acabar com o patriarcado. [Em apoio à Agenda 2030, a ONU Mulheres lançou a iniciativa global “Por um planeta 50-50 em 2030: um passo decisivo pela igualdade de gênero”, com compromissos assumidos por mais de 90 países. Segundo a ONU Mulheres, construir um Planeta 50-50 depende que todos – mulheres, homens, sociedade civil, governos, empresas, universidades e meios de comunicação – trabalhem de maneira concreta e sistemática para eliminar as desigualdades de gênero. Fonte: ONU Mulheres Brasil]

Instituto C&A: Estamos vivendo um momento de ebulição de movimentos de direitos das mulheres e de disseminação de pautas feministas. Ao mesmo tempo, a situação das mulheres na indústria da moda parece que ainda não foi afetada por essa onda de visibilidade. Como dar luz para essas questões?

Ana Carolina: Sim, elas ainda não estão em evidência. Mas acho que um começo é um evento como este [Sustainable Brands, realizado em São Paulo em setembro de 2017, com apoio do Instituto C&A, reunindo cerca de 500 pessoas por dia]. Tem grande importância você colocar como uma das questões centrais [em uma mesa] o empoderamento das mulheres na cadeia da moda, que é um tema que ainda não aparece como grande pauta.

A ONU mulheres trabalha em parceria. Vocês fizeram a provocação e eu estou aqui. Isso é um primeiro passo e vocês têm muitas ferramentas.

Instituto C&A: Quais foram suas impressões a partir do que ouviu da Rede Asta e Cami?

Ana Carolina: São duas iniciativas muito interessantes. A Rede Asta pensa na perspectiva do manejo de resíduos sólidos, assunto com o qual todas as empresas precisam lidar. Como aproveitar o que seria lixo? Elas fazem isso tudo promovendo o empoderamento das mulheres. É uma iniciativa superválida e interessante.

A Soledad vem com um tema que está muito na invisibilidade. Como você sai do seu país e em quais condições? Nesse caso, estamos falando de pessoas que estão bem na base da sociedade, em condições muito ruins de vida. Como essas pessoas podem recomeçar? Como elas passam a ter dignidade? São pessoas que estão na invisibilidade. Muitas não têm sequer documentos, estão à margem da cidadania porque não tem sua presença reconhecida. São essas pessoas que são atendidas pelo trabalho da Soledad.

São dois projetos que estão em duas pontas. Mas podemos pensar que os dois atuam de uma forma que chama a responsabilidade da Indústria da moda. São duas pontas totalmente distintas, caminhos diferentes, mas presentes na cadeia da moda. Como eu disse, não adianta pensar em uma solução apenas para mulheres, sem considerar a diversidade, é preciso levar em conta a interseccionalidade de gênero, raça e etnia. Que são as intersecções? Quanto mais no centro da interseção, você está em situação mais vulnerável em termos de acessos direitos.

[Interseccionalidade é um conceito que mostra como categorias biológicas, sociais, culturais, como gênero, raça, classe, orientação sexual, religião, entre outros interagem em níveis múltiplos. O conceito hoje é muito usado para entender como se dá a injustiça de gênero, que deve levar em conta o racismo. As formas de opressão se inter-relacionam.]

*A entrevista foi feita no Sustainable Brands, evento realizado em São Paulo, em setembro de 2017, com apoio do Instituto C&A.