Lançado relatório sobre o abuso de produtos químicos no cultivo do algodão

Instituto C&A em 11 de outubro de 2017

O algodão é o sustento de cerca de 100 milhões de famílias de agricultores em todo o mundo. Proporciona emprego e renda, e a indústria da moda depende dele. Mas, o cultivo da fibra tem seus problemas, que vão desde o trabalho forçado e o trabalho infantil até problemas de saúde dos agricultores, causados pelo uso de pesticidas na plantação. Várias iniciativas importantes estão enfrentando esses problemas, mas ainda há muito a fazer e os dados são imprecisos.

Uma dessas ações é o novo relatório da Pesticide Action Network (PAN), do Reino Unido, apoiado pelo Instituto C&A em nível global. O estudo visa chamar a atenção para a quantidade de pesticidas utilizada no cultivo de algodão atualmente. Ele examina tendências e padrões de uso, analisando seis países e regiões que respondem por cerca de 80% da produção mundial de algodão: África, Austrália, Brasil, China, Índia e Estados Unidos.

O estudo aponta que o uso total de pesticidas no algodão tem diminuído desde os anos 1980. Entretanto, a melhoria não é uniforme: alguns países atingiram e mantiveram reduções significativas, enquanto outros registraram um aumento. Vale lembrar que os países que tiveram maior sucesso na redução no uso de pesticidas – e em mantê-lo baixo – foram aqueles que adotaram o Manejo Integrado de Praga (MIP), uma estratégia de controle múltiplo de infestações que se fundamenta no controle ecológico e nos fatores de mortalidade naturais dos insetos e das pragas. A lição é clara: se realmente queremos reduzir o uso de pesticidas, precisamos fazer utilizar de forma mais intensa ferramentas como o MIP e outras abordagens agroecológicas para controlar as pragas. 

“Este relatório chama a atenção para o uso de pesticidas no cultivo de algodão. A boa notícia é que esse uso diminuiu desde os picos dos anos 1980, mas o algodão é ainda uma das culturas que mais utilizam pesticidas no mundo e – o que é motivo de grande preocupação – o uso está em alta novamente em muitos dos grandes países produtores de algodão. Muito ainda precisa ser feito”

Keith Tyrell, diretor da Pesticide Action Network – Reino Unido

Prefácio do Relatório

Anita Chester, diretora de Matérias-Primas Sustentáveis da C&A Foundation

O uso de pesticidas no algodão tem sido um tema de discussão há muitas décadas. A diferença entre os grandes produtores, que são agronomicamente instruídos e cultivam em larga escala de forma mecanizada, e os pequenos agricultores, que carecem de conhecimento técnico e extensão rural, está frequentemente no cerne dessas discussões. Grupos de interesse, geralmente em economias mais regulamentadas e avançadas, dizem que o uso de pesticidas no algodão não é mais um problema. Argumentam que o avanço nas tecnologias, como as variedades transgênicas (Algodão Bt), ajudou a reduzir a aplicação de pesticidas. Sabemos que esse não é o quadro completo.

O algodão ainda é o quarto maior consumidor de agrotóxicos. O uso excessivo de pesticidas, principalmente por parte de pequenos agricultores em países pouco regulamentados, pode criar enormes impactos na saúde humana e no meio ambiente. O envenenamento de trabalhadores rurais, a contaminação de rios e da água subterrânea, a reutilização de contêineres tóxicos vazios e a perda de biodiversidade são, todos eles, efeitos bastante reais do uso de produtos químicos. Temos também bons motivos para acreditar que a extensão do problema é bem maior do que a relatada e que pesticidas proibidos continuam sendo usados em muitos países em desenvolvimento. É verdadeiramente lamentável que continuemos a nos justificar usando o pretexto de estudos desatualizados e falta de dados. 

Somos gratos à Pesticide Action Network do Reino Unido pela realização deste estudo que fornece dados atuais sobre os padrões globais de uso de pesticidas no cultivo de algodão e documenta os problemas a ele associados. O estudo mostra claramente que é possível diminuir o uso de agrotóxicos, mas que a adoção do MIP e de outras práticas agroecológicas deve ser central nesse esforço para que a redução seja mantida.

O Instituto C&A apoiou o estudo, já que ele irá certamente ajudar a preencher uma importante lacuna de conhecimento e auxiliar as partes interessadas (stakeholders) a tomar decisões embasadas. A partir do nosso programa de Algodão Sustentável, apoiamos agricultores para que eles produzam algodão de maneira sustentável e saiam da “esteira de pesticidas”. Isso somente será possível se, juntamente com os métodos do MIP que levam a um uso mais responsável de pesticidas, a indústria como um todo também intensificar a pesquisa e os investimentos em controle biológico e adotar abordagens mais agroecológicas para o manejo de pragas.

Clique aqui para baixar o Sumário Executivo ou aqui para baixar o relatório completo.

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Fotos: Capa do relatório e Acervo Instituto C&A