O dia internacional da mulher também é das imigrantes

Manoela Vianna em 8 de março de 2017

Instituto C&A entrevista Soledad Spyer, consultora do Centro de Apoio Pastoral do Imigrante

Hoje milhares de mulheres em todo o mundo estão nas ruas reivindicando a garantia de direitos conquistados e a necessidade de avanços contra as desigualdades de gênero. O 8 de março, Dia Internacional da Mulher, coloca em evidência as diversas realidades das mulheres, como a das imigrantes. Nos últimos 10 anos, o fluxo migratório feminino no Brasil atingiu 45% do total da população imigrante e, dentro desse universo, uma grande parte é de mulheres latino-americanas. São mulheres bolivianas, peruanas e paraguaias, além das haitianas e Sírias que também começaram a chegar. As imigrantes chegam ao país e passam a enfrentar os desafios das mulheres brasileiras somados aos da imigração, como o preconceito e a vulnerabilidade social e econômica, é o que explica Soledad Requena De Spyer, consultora internacional em desenvolvimento social e gênero do CAMI (Centro de Apoio Pastoral do Imigrante). Soledad é peruana e promove ações que mudam as vidas das mulheres imigrantes da cidade de São Paulo. Ela que prefere se descrever como militante a especialista em gênero tem uma história que a ajuda a compreender a problemática das questões da imigração. Soledad imigrou pela primeira vez para a Espanha aos 27 anos a procura de trabalho quando seu País vivia a ditadura de Fujimori. “Uma mulher imigrante nunca desgruda do lado afetivo, a família, então eu voltei ao Peru, mas depois vim para o Brasil, em 92. Quando eu cheguei já era formada em serviço social. A situação era melhor do que da maior parte dos imigrantes, mas eu não deixei de ser sujeito de discriminação. Além disso, eu vim de uma família indígena então eu vi minha família sofrer discriminação no meu próprio país. A gente nunca deixou de ser imigrante. Mas quando nos empoderamos, ninguém nos segura." Leia mais na entrevista com Soledad sobre a realidade das mulheres imigrantes no Brasil.

Instituto C&A: A desigualdade de gênero faz parte da estrutura da sociedade brasileira, ao pensarmos na realidade das imigrantes, podemos dizer que essa questão é reproduzida? As mulheres imigrantes são mais vulneráveis que os homens?

Soledad: Quando uma mulher sai de seu país e se torna imigrante, ela passa por várias dificuldades, como também foi meu caso. Uma delas é a falta de conhecimento do idioma. Outra é que a maioria das mulheres vem de uma realidade de pobreza. A maior parte delas tem baixa escolaridade, a maioria não concluiu o segundo grau. São variáveis que a tornam vulneráveis. Elas fazem parte de um circulo de pobreza e de opressão.

Também há preconceitos nos serviços públicos. A gente tem ouvido muito das mulheres que elas têm medo, receio de procurar os serviços públicos. Esses serviços públicos não estão preparados, não há o conhecimento da problemática da mulher imigrante. A mulher imigrante traz consigo sua simbologia cultural e sofre com discriminação pelo fato de ser negra ou indígena. Porém, o que é engraçado é que a grande maioria da população brasileira é negra, a gente não entende como o servidor público da educação e da saúde não compreende a problemática da mulher africana, a mulher árabe, a mulher latino-americana.

O machismo é mais uma questão. Ele está presente nos países de onde vem essas mulheres. A imigração também traz essa cultura. Para uma mulher brasileira já é difícil fazer uma denúncia [denúncia de violência], para uma mulher imigrante é ainda pior, o que as torna ainda mais vulneráveis. A grande maioria não denuncia. Tem medo. E a própria comunidade não ajuda fazer o cumprimento da lei Maria da Penha. É uma situação muito grave e trata-se de uma violência que vem do companheiro, do namorado e do esposo.

Instituto C&A: No Centro de Apoio e Pastoral do Migrante (CAMI) entre as ações voltadas para as mulheres estão as rodas de conversa. Como elas funcionam e quais impactos positivos que essas atividades têm nas vidas das participantes?

Soledad:Em 2016 participaram 274 mulheres distribuídas em rodas de conversas que acontecem em dez bairros de São Paulo. As rodas são organizadas por meio das lideranças dos bairros, chamadas de multiplicadoras. As atividades acontecem nos finais de semana, principalmente aos domingos e duram cerca de quatro horas.

Participam mulheres de 25 a 45 anos, mas parte do meu desafio neste ano é chamar as mais jovens. As mulheres imigrantes jovens estão vivendo uma situação de alta vulnerabilidade. Muitas vezes elas têm gravidez indesejada por falta de informação aos direitos de saúde sexual e reprodutiva. Há muitas jovens com filhos pequenos e sem parceiros.

Em agosto, fizemos uma avaliação das rodas para ver o impacto, o quanto este trabalho das rodas está beneficiando as mulheres. Por exemplo, sobre o nível de conhecimento [adquirido], elas já sabem como regularizar sua condição de imigrante. Este é um passo qualitativo muito importante. Outro ponto, é que elas falam: “a gente tem menos medo"... elas têm menos medo de chegar na saúde [pública] e na educação. Outra vantagem é que muitas estão fazendo curso de português.

A violência contra a mulher também é tema presente. Elas falam que antes das rodas tinham medo de compartilhar até com amigas sobre a situação de violência que muitas vezes sofrem no lar. No ano passado, por exemplo, trabalhamos com a Lei Maria da Penha.

Instituto C&A: O Instituto C&A busca a transformação da indústria da moda, o que passa fundamentalmente para garantia de condições melhores de trabalho e erradicação do trabalho escravo. Como você vê a posição das mulheres imigrantes nesse contexto?

Soledad:O CAMI trabalha para erradicar o trabalho escravo. Na questão do trabalho escravo é mais visível a imagem masculina, mas a imagem feminina está também presente. Há presença das mulheres nas oficinas de costura em situação de escravidão. Falta visibilidade para isso.

A nossa estratégia de trabalho são processos de empoderamento das mulheres. Começando pelos direitos humanos. Entendemos a cultura das mulheres, a situação de vulnerabilidade delas para ser possível empoderá-las. Enquanto uma mulher não entender o que é trabalho escravo, ela não vai entender o direito humano ao trabalho digno. Muitas vezes eu escuto falas das mulheres naturalizando o trabalho escravo. Então estamos falando de dois momentos: trabalhar o significado do trabalho escravo, com mais profundidade, entendendo a lógica das mulheres especificamente e trabalhar os direitos humanos.

Instituto C&A: Qual é o sentido do Dia Internacional das Mulheres para as mulheres imigrantes?

Soledad: O 8 de março de 2017 será um dia de celebração e luta por nenhuma a menos e nenhum direito a menos. Para nós é de celebração sobre tudo que avançamos. Quando olhamos para trás, há 50, 100 anos, a gente sabe que avançou porque muitas mulheres lutaram para conseguir o que nos temos. Eu vejo [o 8 de março] como celebração para lembramos disso, mas também como um momento de luta. Como o movimento mundial, falamos “nenhuma a menos." Nenhuma a menos no sentido de não ser morta e também de nenhum direito a menos. O CAMI está trabalhando neste sentido. Nenhum direito a menos. Não podemos voltar para trás depois de tudo que alcançamos. No Brasil vocês são exemplos. Para o mundo latino-americano vocês deram passos muito importantes.

Instituto C&A: Qual é a percepção de vocês sobre os eventos que estão programados?

Soledad: A marcha mundial que acontece no dia 8 está dando sinais maravilhosos. Eu sinto que esta marcha será um ícone para a luta das mulheres no feminismo no mundo. A marcha que houve nos Estados Unidos [Marcha das Mulheres realizada nos EUA em 21 de janeiro contra o governo Trump] - contra tudo que está acontecendo em respeito a particularidade da sociedade americana foi muito importante. Eu fico muito feliz que nós mulheres não estamos quietas.

Instituto C&A: Como CAMI marcará o dia 8 de março?

Soledad: No domingo [5/3], nós fizemos, no CAMI, um ato bem bonito, simbólico pelo dia internacional da mulher. Quinhentas pessoas que fazem parte das ações do CAMI, incluindo muitas mulheres jovens participaram. Nós homenageamos a mulher mais idosa presente na reunião que deu seu testemunho sobre o que significa ser imigrante. Ela falou que quando chegou ao Brasil sofreu demais, chorou demais e lutou demais, mas depois de participar de ações do CAMI e de outras instituições entendeu o quanto ela vale. Ela disse que não podemos desistir. “Não desistir" é uma frase que eu adoro.

O CAMI é parceiro do Instituto desde 2014

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