Os desafios da economia circular

Manoela Vianna em 19 de fevereiro de 2018

O holandês Douwe Jan Joustra tem uma década de experiência em economia circular e está comprometido em alavancar nosso programa de moda circular porque acreditamos que este é um dos caminhos para fazer mudanças sistêmicas na  indústria da moda. Nesta entrevista, Douwe Jan desfaz a confusão entre os conceitos de reciclagem e economia circular e explica: “estamos buscando  novos modelos de negócio e novos design de produtos que tenham uma vida útil longa, ou seja, que possam transformar-se em matéria-prima para outros produtos em um ciclo contínuo.” Confira a entrevista realizada na última edição do Colabora America.

Instituto C&A: As pessoas confundem economia circular com reciclagem. Você pode explicar a diferença?

Douwe Jan Joustra: Essa confusão acontece em todo o mundo, pois um dos principais aspectos da economia circular envolve um sistema de produção com resíduos zero. Como os resíduos são realmente um grande problema, tentamos fazer algo útil com aquilo que já foi gerado. Pessoas, empresários, instituições públicas gostam muito disso [reciclagem] porque ela resolve mais ou menos o problema de hoje . Há muitas startups tentando criar produtos com base em materiais reciclados ou apenas em resíduos. Um exemplo é a criação de sacolas a partir de pneus velhos. Essa é a solução técnica, é a solução mais fácil, mas isso não é a economia circular propriamente dita. É no máximo uma boa 'política de resíduos'.

Instituto C&A: Então, o que é economia circular?

Douwe Jan Joustra: O modelo econômico atual – a chamada economia linear – baseia-se no processo de “extrair-produzir-descartar”, em que o crescimento econômico depende do consumo de recursos naturais finitos. Essa estratégia traz consigo o risco de esgotamento de matérias-primas e a geração de um volume cada vez maior de resíduos. A economia linear é uma economia com foco em produtos. Em oposição a tudo isso, o conceito de economia circular propõe que os recursos que extraímos e produzimos sejam mantidos em circulação por meio de cadeias produtivas integradas. Assim, o destino final de um material deixa de ser uma questão de gerenciamento de resíduos, passando a fazer parte do processo de design de novos produtos. A economia circular é uma economia de serviços com foco em desempenho.


Instituto C&A: Os resíduos agora caminham para gestão de materiais?

Douwe Jan Joustra: Exatamente! A ideia é eliminar o conceito de lixo e enxergar cada material em um fluxo cíclico, possibilitando sua trajetória de produto a produto, preservando e transmitindo seu valor o máximo de tempo possível. Em resumo, a economia circular presta serviços, preserva e aprimora o capital natural, otimiza a produção de recursos naturais e minimiza riscos sistêmicos.

Instituto C&A: Quais sãos os principais desafios da economia circular?

Douwe Jan Joustra: O grande desafio é mudar as empresas para que elas desenvolvam novos modelos de negócio que agreguem valor ao produto/serviço. Estamos buscando esses novos modelos de negócio e novos designs de produtos que tenham vida útil, ou seja, que facilitem a transformação de produtos e serviços em matéria-prima para outros produtos em um ciclo contínuo. Mas, para viabilizar essa circulação, precisamos que as empresas sejam responsáveis por seus materiais e encarem os produtos, incluindo os materiais, como seus ativos. Isso resolveria muitos dos problemas envolvendo resíduos e o esgotamento de recursos porque poderíamos mantê-los no sistema por muito mais tempo do que hoje. Por exemplo, as grandes marcas são organizações baseadas em vendas - se pudéssemos fazer com que elas se tornassem organizações baseadas em serviços, haveria uma mudança completa em seus modelos de negócios. Isso mudaria a perspectiva das grandes marcas com relação ao que elas fazem. Esses são os verdadeiros desafios da economia circular.

Também temos uma questão técnica, pois precisamos de novas tecnologias para criar materiais de acordo com esse conceito. E o nível da tecnologia hoje está baseado na reciclagem em vez da criação de um novo sistema.

Instituto C&A: Como o Instituto C&A vem trabalhando com a economia circular para transformar a moda em uma força para o bem?

Douwe Jan JoustraEstamos fortemente empenhados em transformar a indústria da moda que, por sinal, já está aberta para a economia circular, A busca ainda é a realização de, por exemplo, novos modelos de negócio que são fundamentais para essa transformação. Acontece que ainda há poucas marcas/varejistas ou fornecedores redesenhando seu negócio em direção à circularidade, ou seja, há uma grande lacuna em termos de implementação. Muitas empresas estão interessadas na economia circular, mas pouquíssimas trabalham na sua implantação. É isso que chamamos de 'Lacuna de Implantação'.Por isso, lançamos um edital 'Preenchendo a lacuna' (o edital foi encerrado em 18 de fevereiro de 2018) em busca de projetos inovadores para implementar modelos circulares em empresas da cadeia de valor da moda. Para isso, o time global do Instituto C&A conta com orçamento de 1,5 milhão de euros para financiar novas ideias.


Do ponto de vista do nosso programa, atuaremos em três níveis: inovação técnica, inovação nos processos e inovação nos sistemas. Teremos todos os tipos de projetos. Em inovação técnica, temos o Fashion For Good, que é uma plataforma global de inovação e um hub de startups - muita comunicação com as marcas e todos que trabalham nesse setor. No segundo e terceiro nível, começaremos a trabalhar em inovação de processos - novos modelos de negócios e no hiato de implantação. A cada 100 empresas falam sobre economia circular, uma ou duas estão tomando uma atitude. Então há um enorme hiato na implantação.

Instituto C&A: Você pode nos trazer alguns exemplos de iniciativas que trabalham com o conceito de economia circular?

Douwe Jan Joustra: Hoje, existe um mercado cada vez maior para compartilhamento. Também há um mercado de segundo uso - não o de segunda mão, que é considerado lixo - mas de segundo uso. Um exemplo é a 'biblioteca de roupas'. Você se associa e pode usar as roupas na hora que quiser. Algumas dessas iniciativas estão começando de forma tímida, e nosso maior desafio é criar um modelo mais circular para todo o sistema têxtil. Um dos desafios é fazer com que esses projetos marginais se tornem 'mainstream'.

A Mud Jeans trabalha com um conceito interessante de leasing: 'Alugue um Jeans'. Eles começaram a fazer jeans a partir de algodão biológico e adotou o conceito de leasing para vendas do produto [nesse modelo, o cliente opta por parcelas ao longo do ano para utilizar a roupa com possibilidade de adquiri-la ao final do contrato]. O cliente também ganha descontos ao levar seu jeans velho para a loja e trocar por uma peça nova.

Outro exemplo é este meu terno, que é feito pela Dutch Spirit. A marca também adota o conceito de leasing para ternos de alta qualidade, que custam por volta de mil euros. No forro do meu terno está a Declaração Universal dos Direitos Humanos. O próximo terá no forro os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável.

Instituto C&A: Quais são as suas impressões sobre o Brasil com relação a esse tema?

Douwe Jan Joustra: Quando estive no Brasil pela primeira vez, no fim de 2014, fui o primeiro a citar a economia circular numa conferência do setor. Naquela ocasião, ninguém me procurou para conversar sobre o assunto. Depois disso, voltei cinco vezes, e foi incrível, agora, ver o número de grupos, de organizações, de federações e de indivíduos trabalhando com o conceito. Para mim, a economia circular já é uma realidade no País. Há muitos empreendedores trabalhando em modelos de negócios circulares. A economia circular foi o elo entre as pessoas nesses três dias de evento do ColaborAmerica (Rio de janeiro, novembro de 2017). Essas pessoas estão focadas em mudar a economia, os modelos de negócio e o papel das diferentes organizações, e isso é muito bom de se ver. Estou muito animado com o que tenho visto no Brasil.

Saiba mais sobre economia circular na entrevista com Luísa Santiago, representante da Fundação Ellen MacArthur no Brasil.

Aqui, você confere o último relatório produzido pela Ellen MacArthur sobre a economia circular e a cadeia da moda.