Transparência é uma importante aliada na busca por melhores condições de trabalho

Manoela Vianna em 16 de outubro de 2017

O Instituto C&A quer transformar a indústria da moda, e um dos caminhos que estamos seguindo para isso é fomentar mudanças nas condições de trabalho de mulheres e homens que fazem parte dessa indústria. À frente desse processo está Jill Tucker, uma americana com mais 20 anos de experiência em relações internacionais e compliance. Jill lidera o Programa Melhores Condições de Trabalho e nos conta, na entrevista abaixo concedia em sua visita ao Brasil, que, há mais de cem anos, os problemas da indústria da moda se deslocam geograficamente sem serem resolvidos, mas que, mesmo com esse cenário complexo, é possível incentivar iniciativas com potencial de transformação. Para ela, devemos explorar mudanças nas relações entre trabalhadores e empregadores e entre compradores e produtores. A boa notícia do momento é a progressiva incorporação de mecanismos de transparência às cadeias de fornecimento de grandes marcas, o que se mostra, sem dúvida, como uma das apostas do Instituto C&A para fazer da moda uma força para o bem. Confira a entrevista.

Instituto C&A: Como foi a sua jornada profissional até chegar à C&A Foundation?

Nos anos 1990, eu já trabalhava com relações internacionais há cerca de uma década quando um executivo de uma grande empresa de vestuário dos EUA veio ao meu escritório na Indonésia e me falou sobre um cargo para o qual estavam contratando: monitor de compliance de fábrica. Eu nunca havia ouvido falar desse trabalho antes. Indiquei uma amiga indonésia, que foi contratada. O trabalho dela parecia ser tão significativo que, quando vagou esse cargo na Reebok, empresa de calçados, eu me candidatei e fui aceita. Trabalhei lá durante cerca de uma década e criei uma equipe de compliance na Ásia. Mais tarde, trabalhei com a OIT à frente do programa Better Factories Cambodia. Mas, quando soube do Instituto C&A [em nível global], percebi que eles estavam tentando resolver os problemas de forma mais sistemática e aproveitei a oportunidade de tentar fazer uma diferença maior na indústria.

Instituto C&A: Como a experiência de viver em diferentes países a afetou?

Aprendi com muitas pessoas incríveis, talentosas e criativas quando trabalhei em Bangladesh, Indonésia, Camboja, China, entre outros países. Muitas dessas pessoas eram trabalhadores no ramo de vestuário. Descobri que talento, inteligência e motivação pareciam estar igualmente distribuídos entre as populações, mas o preconceito, as barreiras e as oportunidades não estavam. Percebi que o simples fato de ter nascido nos EUA me dava acesso às oportunidades que os meus colegas não tinham. Então, tive que me perguntar: qual é a minha obrigação de garantir que aqueles que não tiveram as mesmas oportunidades que eu não sejam excluídos de determinar como as coisas deveriam funcionar em suas comunidades e locais de trabalho? Decidi que eu tinha a responsabilidade de desempenhar um papel – mesmo que pequeno – na resolução dessas desigualdades.

Instituto C&A: Na sua biografia do site do Instituto C&A, você afirma que "acredita que transformar a moda em uma força para o bem significa mudar fundamentalmente o status quo – mudar os relacionamentos e a forma como as coisas sempre foram feitas". Como você relaciona as coisas que você viu no Brasil a essa ideia?

A indústria global de vestuário é imensa e complexa. Embora tenha havido mudanças – incluindo o desenvolvimento de programas de compliance na área social e a recente tendência para o fast fashion–, elas não foram significativas nas condições de trabalho. Ao estudar a tragédia da fábrica do Triangle Shirtwaist Factory em Nova York, em 1911, em que morreram 145 trabalhadores, e fazendo uma comparação com o incêndio da fábrica de Tazreen em 2012 e o desmoronamento da Rana Plaza em 2013 (ambos em Bangladesh), podemos ver que, mesmo após cem anos, os problemas se transferem de país para país, mas a maior parte não está sendo resolvida. Existem fábricas excelentes em todos os países produtores de vestuário, mas também existem muitas que exploram os trabalhadores. Para enfrentar os desafios, acredito que precisamos promover mudanças fundamentais na relação entre trabalhadores e gestores e na relação entre compradores e produtores. Os consumidores também se beneficiaram com a queda dos preços do vestuário. Isso não pode continuar se quisermos melhorar as condições de trabalho de forma sustentável.

Instituto C&A: Sabemos que temos grandes desafios a serem abordados em todas as iniciativas do Instituto globalmente. Você poderia explicar qual é a estratégia do programa Melhores Condições de Trabalho?

O principal objetivo é aumentar a responsabilização pelas condições de trabalho em todos os níveis por meio de:

• Transparência: divulgação pública das condições de trabalho, das práticas de compras e das cadeias de fornecedores, de forma a incentivar melhorias;

• Empoderamento dos trabalhadores: capacitação dos trabalhadores para negociar e barganhar coletivamente as melhorias priorizadas por eles;

• Mudança e aplicação de políticas: desenvolvimento e aplicação de políticas que promovam boas condições de trabalho e assegurem os direitos legais.

Trabalhamos com todas as partes interessadas (trabalhadores, empregadores, associações de classe, governos, investidores, etc.) e em todos os níveis, desde fábricas de Nível 1 até campos de algodão. Tentamos trabalhar com quem não tem relacionamentos com as grandes marcas que mantêm programas de conformidade bem desenvolvidos, porque aqueles que estão fora da esfera das grandes marcas geralmente enfrentam desafios mais sérios. Para fazer mudanças sistêmicas, tentamos nos concentrar estritamente em nossa missão e resistir a concessões que possam ser benéficas para algumas partes interessadas, mas que provavelmente não trarão mudanças sistêmicas.

Instituto C&A: Como o nosso trabalho pode mudar as realidades das mulheres que fazem parte da indústria da moda?

Na maior parte dos países produtores de vestuário, as mulheres formam a maioria das costureiras e operárias de nível inferior, mas uma minoria ocupa cargos de supervisoras e gerentes. Também vemos pouquíssimas mulheres em cargos de liderança nos sindicatos da indústria de vestuário. Com as nossas contribuições, tentamos garantir que elas tenham a oportunidade de ser protagonistas ou promotoras de boas condições de trabalho, não apenas indivíduos passivos. Quando isso acontecer, acreditamos que as questões com as quais as mulheres se preocupam serão priorizadas e que isso será benéfico para suas comunidades e para os homens da indústria também.

Instituto C&A: Você já trabalha na C&A Foundation há alguns anos. Considerando o que conquistou até agora, do que você mais se orgulha?

Mudanças reais e sustentáveis levam tempo e, como estamos no início da nossa jornada, acredito que devemos ser humildes com relação ao que conquistamos até agora. Contudo, estamos batendo na tecla da transparência como meio de responsabilização desde o início. Mesmo há alguns anos, a palavra "transparência" não era bem vista na indústria. As marcas tinham medo dela e resistiam. As ONGs não a exigiam. Eu me dei conta de que o Brasil foi pioneiro nesse sentido, e essa transparência tem sido uma característica da sua indústria há algum tempo. Mas, fora do Brasil, o mesmo não acontece. Isso está mudando. O ano de 2017 tem sido excelente para a transparência da indústria de vestuário. Mais de cem marcas já divulgaram suas listas de fábrica, e foram publicados vários relatórios importantes sobre transparência, como o Follow the Thread da Human Rights Watch e o Fashion Transparency Index 2017, da Fashion Revolution. Mesmo a Economist Intelligence Unit lançou um vídeo de 15 minutos sobre transparência na cadeia de fornecedores. Algumas de nossas contribuições estão começando a surtir efeito. A onda de transparência está crescendo, e acredito que esse é um caminho sem volta.

Clique aqui para conhecer nossas inciativas na busca por melhores condições de trabalho no Brasil.

Recentemente, a C&A publicou a sua lista de fornecedores, dando um importante passo para a transparência no Brasil. Clique aqui para acessar.