A mulher imigrante quer alcançar os seus sonhos

Com o objetivo de acompanhar os projetos que apoia, o Instituto C&A realiza avaliações frequentes das ações desenvolvidas por organizações parceiras. As avaliações são importantes para fortalecer as iniciativas e contribuir para promover mudanças positivas e duradouras. Além da avaliação, também estamos comprometidos em disseminar os resultados alcançados pelos parceiros. Entendemos que a comunicação é uma importante ferramenta de fortalecimento e legitimação.   

Uma das organizações que teve o projeto avaliado é o CAMI (Centro de Apoio e Pastoral do Migrante), que promove ações de inclusão social para garantir os direitos dos imigrantes. A avaliação do CAMI mostrou, dentre outros resultados, a eficácia da iniciativa Rodas de Conversa, um importante instrumento para empoderar mulheres costureiras e ajudar a prevenir o trabalho escravo.

Semanalmente, aos finais de semana, elas se reúnem para conversar, aprender e buscar a garantia de direitos. Desde 2015, mais de 550 mulheres participaram da iniciativa. As rodas são coordenadas pela consultora Soledad Requena de Spyer. Em seu trabalho, Soledad busca fortalecer a autonomia financeira, o empreendedorismo e promover o empoderamento e a troca de saberes.

Conheça um pouco da história de Soledad, que dedica a vida à causa da mulher imigrante.

Empoderamento feminino

No CAMI, a principal atividade de Soledad é coordenar as Rodas de Conversas de costureiras imigrantes.

É um trabalho focado no empoderamento da mulher imigrante envolvida na costura. O CAMI realiza intervenções visando garantir os direitos dessas pessoas. Visita oficinas, oferece cursos de português, aulas de corte e costura, modelagem e também de empreendedorismo.

Nas rodas de conversa, as mulheres debatem seus problemas e propõem caminhos conjuntos. “Ao acessarem informações sobre direitos, ao aprender a língua portuguesa, ao desenvolver o empreendedorismo, elas dão o primeiro passo para se livrar do trabalho escravo, da violência doméstica, de relações comerciais exploratórias”, explica Soledad. “Na roda de conversa a mulher encontra forças para superar desafios”.

Apontar caminhos, buscar o fortalecimento coletivo e aprender cada vez mais. Aprender sempre. Na opinião de Soledad, esse é o gesto que já fez centenas de mulheres terem acesso a novas possibilidades para a construção de uma vida digna, com justiça social e solidariedade. “Muitas saíram da extrema vulnerabilidade, saíram do trabalho escravo e hoje têm sua própria oficina. Estamos no caminho certo”. 

Superação

Soledad tinha 21 anos de idade quando deixou o Peru, seu país de origem, para tentar uma nova vida no Brasil. Escolheu Minas Gerais. Na região do Triângulo Mineiro, casou-se com um brasileiro e teve o primeiro filho ainda antes de terminar a faculdade de serviço social, pela Faculdade Integrada do Triangulo - Universidade Federal de Uberlândia.

No final dos anos 1980, no interior de Minas, Soledad era imigrante, jovem mãe e estudante. Nas ruas, perguntavam se era a babá da criança. Nas lojas, perguntavam se era japonesa. Na porta de sua própria casa, perguntavam se era a empregada e se era nordestina.

Com voz calma e muita paciência, explicava que era imigrante, mãe da criança e dona da própria casa. Sentia que não era aceita na comunidade onde vivia. E muitas vezes nem pelas colegas da faculdade. Nem mesmo pela maioria dos professores. Mesmo assim, conseguiu ser uma boa aluna e foi uma das primeiras de sua turma a concluir o curso. Formou-se, teve outro filho, separou-se do marido, fez um mestrado. Mas por muitos anos continuou sendo a babá, a empregada, a japonesa, a nordestina. Era vista como estranha, socialmente inferior. Poucos sabiam sua história ou tinham curiosidade de perguntar. Assim viveu muitos anos.

Ao longo do tempo, na condição de imigrante, superou a discriminação, superou o medo. Não se entregou aos reveses. Com invejável dedicação, construiu, passo a passo, uma história vitoriosa e que agora merece ser contada. Hoje, aos 60 anos de idade, tem a mesma voz pausada e a mesma paciência do tempo em que era estudante, jovem mãe, imigrante em busca de trabalho, em busca de reconhecimento e dignidade. 

Acolhida e afeto

Passados 40 anos desde que desembarcou em Minas Gerais, tem a mesma serenidade para demonstrar, com palavras e gestos, que a discriminação e o preconceito só têm uma resposta possível: paciência, dedicação e amor. “Encontrei no Brasil acolhida e afeto, mas também encontrei discriminação de pessoas que não me aceitavam”, recorda ela.

Soledad chega aos 60 anos com a energia intacta, determinada a construir a própria vida longe da terra natal. “Quando voltei por um tempo ao Peru, encontre meu pais governado por Fujimori, que cometia atrocidades e perseguia os que defendiam direitos humanos. Fiquei pouco tempo e retornei novamente ao Brasil”.

 Com a tranqüilidade que no passado explicava sua origem imigrante, hoje se entrega à missão que escolheu como modo de vida: “meu trabalho é defender os direitos das mulheres imigrantes”.

A isso se dedica, e diz: “transformei raiva em solidariedade. Transformei dor em gesto de amor. Sempre haverá discriminação, mas nada deve impedir a mulher imigrante de alcançar os seus sonhos”.

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Fotos: Tatiana Cardeal