Transparência: a evolução do mercado da moda

Transparência costumava ser um tema sensível na indústria têxtil, mas dezoito anos atrás este cenário começou a traçar um caminho diferente. Três acadêmicos - Archon Fung, Dara O’Rouke, e Chuck Sabel – publicaram um plano visionário para eliminar as péssimas condições de trabalho na indústria têxtil.

O projeto descrevia uma indústria onde as cadeias de suprimento, condições de trabalho e auditorias fossem transparentes e devidamente públicas. Dessa forma, as marcas e suas respectivas fábricas poderiam ser responsabilizadas pelo seu desempenho. No entanto, a proposta não se tornou popular na época do lançamento.

Já nos dias atuais, cinco anos depois do colapso do edifício de Rana Plaza, o debate sobre transparência está presente em todos os setores. Pensando nesta nova realidade, Sarah Ong, gerente de programas do time global do Instituto C&A, questiona como podemos melhorar nosso foco em relação aos dados incisivos que fazem com que a transparência seja efetiva na indústria de vestuário.

No ano passado, a Economist Intelligence Unit escreveu: “Empresas que buscam a credibilidade em uma base de consumidores cada vez mais informados e críticos precisam parar de dar desculpas. Elas precisam reconhecer que, na era digital, não podem nem controlar a pauta nem quem acessa informações sobre suas cadeias de suprimento. A pressão sobre elas com relação à transparência e responsabilidade só tendem a aumentar.”

Ao mesmo tempo em que é bom ver a transparência sair do anonimato e tornar-se o foco principal de discussões, percebemos que o termo está se tornando cada vez mais superficial. A palavra está sendo usada para descrever relatórios de Responsabilidade Social Corporativa, honestidade entre compradores e fornecedores, entre outras coisas.

Essas informações não podem erradicar décadas de condições precárias. Uma ação decisiva é necessária para mudar as situações degradantes nas fábricas. A transparência deve continuar ditando a evolução do mercado da moda.

Archon Fung, Mary Graham e David Weil defendem em Full Disclosure: The Promise and Perils of Transparency que, para ser eficaz, é preciso:

  • Nomeados: As informações devem ser relacionadas a uma empresa específica, à marca, fábrica e ao auditor;
  • Abrangente: Precisamos de informações suficientes para cobrir todas as marcas ou, pelo menos, boa parte delas;
  • Comparável: As informações precisam ser padronizadas, de forma que os dados possam ser comparados;
  • Contínua: As informações precisam ser atualizadas regularmente, para que o leitor possa comparar o desempenho ao longo do tempo;
  • Granular: As informações precisam ser detalhadas o suficiente para que os tomadores de decisão possam usá-las e para que qualquer um possa contestar sua precisão.

Além dos itens acima, os dados devem ser de domínio público - não de propriedade privada. Esse tipo de transparência não é incomum e muito menos impossível. Se, por exemplo, retirarmos qualquer uma das características listadas acima de um relatório trimestral de ganho, a informação seria muito menos valiosa.

Na indústria de vestuário, há um grupo pequeno – mas crescente – de empresas que divulgam seus dados contendo essas cinco características. Está na hora de o mercado da moda como um todo se preocupar com a sua cadeia produtiva, tornando-a cada vez mais justa e sustentável.